sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Brevidade

Nada se cria, tudo se transforma. A vida que nasce logo padece, se consubstancia ao solo. O corpo físico, a matéria, se imaterializa. Nada se perde, aparentemente. O tempo nos coloca no espaço e nos ilude com sua pretensa ideia de dimensão. A única coisa que ela nos diz em verdade é sobre a efemeridade das coisas. Tudo passa, nada fica. A subjetividade que se cinge em si mesma, morre em si mesma. Ninguém se abre, todos fingem se afetar. Mas já é de se esperar, expectativa do nada, que invade o peito, preenche a mente e depois se expurga do corpo. Corpo enfermo, templo vazio. A sua existência é nula e beira ao nada, é o próprio nada. Outros corpos em coexistência não se dão conta do ludíbrio da vida, que dela gozam sem nenhum temor e sem nem ao menos saber que cada segundo que passa é o próprio perecimento em vida. Ignorância é uma benção. Vivo, mas faço de conta, porque não há nesse conto fantástico o livro do êxodo. Finjo, mas finjo para suportar. Porque tudo é sem propósito, o tudo é o nada. Tudo não passa de uma sombra errante que vaga sem rumo ao nada.